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Osasco
20 de outubro de 2020
Cultura

Resquícios da Barbárie

O poeta não pode se calar diante dos atos de violência praticados contra as nossas crianças. A caneta e o papel são a nossa voz.

Brinco de casinha no quintal;
sou tão feliz na rua, com as amigas…
mas quando chega a hora de ir embora,
começo a sentir frio na barriga.

Prefiro estar na casa da vizinha;
entro em prantos ao despontar da lua;
é que a noite chega, e eu tenho que voltar;
eu preferia até morar na rua.

Minha casa não é como a das outras;
não é digno de ser chamado de lar.
Quando eu ponho a mão na maçaneta,
meu peito acelera, quero chorar.

Quando entro, já sei do meu destino.
O medo me invade, ano após ano.
Tenho marcas profundas no meu íntimo,
que só eu guardo, com ninguém divido

Eu vejo as crianças na pracinha,
e encho-me de lágrimas nos olhos
ao pensar que muito gostaria
de também viver feliz em família.

Quem deveria me proteger, me fere;
me faziam mal, eu não entendia;
e agora que eu cresci, me apavoro
não me conformo com tanta covardia.

Conto as horas até o nascer do sol;
chego na janela, e quando vejo amanhecer,
tomo banho, lavo os resquícios da barbárie,
abro a porta; vou brincar, criança ser.

 

 

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