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17 de abril de 2021
Saúde

Elitização da vacina: clínicas particulares negociam compra de 5 milhões de vacinas

Clínicas privadas querem oferecer vacina contra covid-19 já no início de 2021

 

Neste domingo (3), a Associação Brasileira das Clínicas de Vacinas (ABCVAC) informou que está em processo de negociação com o laboratório indiano Bharat  Biotech para efetuar a compra de cinco milhões de doses de vacinas contra a covid-19.

Após a  Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) informar que assim que um imunizante contra a covid-19 for autorizado para o sistema público, simultaneamente a medida poderá ser aplicada por hospitais e clínicas particulares, a Associação acelerou a negociação que teve início nesta segunda-feira (4), na Índia.

Essa deve ser a primeira vacina disponível para o mercado privado brasileiro”, conta o presidente da entidade”, Geraldo Barbosa.

O imunizante chamado de Covaxin teve o seu uso emergencial aprovado no último domingo (3) pelo Conselho Indiano de Pesquisa Médica (ICMR) –  regulador nacional de medicamentos indianos – e o Instituto Nacional de Virologia (NIV), causando estranhamento e  consternação da comunidade científica local em relação à vacina escolhida, já que não havia até então a divulgação dos últimos dados de segurança e eficácia da última fase de testes do imunizante, é o que aponta a Revista científica indiana The Wire Science ”.

O presidente da ABCVAC, Geraldo Barbosa afirma que a opção de iniciar a vacinação simultânea poderá ser vantajosa para o governo.

As pessoas que se dispuserem a pagar pela vacina livrarão o governo do custo e contribuirão para acelerar a imunização. São as que têm maior preocupação em voltar a trabalhar normalmente, portanto isso também ajudará na recuperação da economia”, disse Barbosa.

Em entrevista para o Portal Oeste Paulista, o cientista social Fabricio Mendes alega preocupação sobre a  aquisição da vacina pela rede privada de saúde, apontando que essa iniciativa pode proporcionar um fosso agravante e acentuado da desigualdade social no Brasil.

“A população pobre e trabalhadora que depende exclusivamente do SUS é a que tem proporcionalmente o maior número de mortes por Covid-19 do país. Sendo a primeira vítima fatal da doença uma empregada doméstica que contraiu o vírus de seus patrões que voltavam de viagem da Europa, revelando que é bastante significativo e escancarado os sintomas da desigualdade social e os efeitos do capitalismo e sua micropolítica que vem exterminando as populações mais pobres, com consequências ainda mais graves para minorias como as mulheres, LGBTs e negras. De modo que enquanto a disponibilização da vacina no sistema público segue a passos lentos e com um cronograma  com definição de públicos, e mesmo sabendo que o setor privado ‘em tese’ deveria seguir também essas regras de quais grupos prioritários devem ser imunizados, todos sabemos que no setor privado leva quem paga.  Logo, enquanto quem puder pagar estará sendo protegido pela vacina, as populações pobres de diversos setores continuarão expostas aos riscos da doença e do desemprego, pois para aprofundar ainda mais a miséria das populações mais vulneráveis, o Governo federal não prorrogou as medidas sociais como o auxílio emergencial  e o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda ”, afirma o cientista.

Oeste Paulista:  O que perdemos quando perdemos a responsabilidade pública ?

Fabricio Mendes: Perdemos vidas. Muitas mortes poderiam ter sido evitadas com a aplicação séria de programas sociais de garantia de emprego e de renda oportunizando de fato o “fica em casa”,  com um melhor e maior investimento na saúde para a grande parte da população, contudo o neoliberalismo tem causado mortes e destruição, onde a própria covid é uma consequência deste modo de organização do sistema produtivo exploratório. A forma com que o governo tem administrado a crise atual acentua as desigualdades e as mortes, mortes que, aliás, traz como consequência um número significativo de famílias que perdem seus entes queridos, muitos deles que davam sustentação financeira, seja através de trabalho formal ou informal, ou mesmo aposentados. Deixando milhares de pessoas sem o sustento, sem políticas públicas de ajuda emergencial financeiras e sem a proteção da vacina, o que deixa essa camada da população ainda mais exposta à morte e ao aprofundamento das desigualdades, elevando ainda mais o Brasil no ranking da fome, dos baixos índices de desenvolvimento social e do número de óbitos por covid.

Oeste Paulista: Qual é a sua percepção sobre a possível logística que será realizada pela rede privada para a obtenção de seringas e agulhas? 

Fabricio Mendes: Clínicas privadas através da Associação Brasileira das Clínicas de Vacinas (ABCVAC) deram início a um esforço para a aquisição de 5 milhões de doses da vacina desenvolvida pelo laboratório indiano Bharat Biotech, enquanto isso o governo federal além de dificultar os esforços dos governos estaduais para a liberação das vacinas Oxford, Cinovac e outras,  fracassou em pregão e conseguiu garantir apenas 3% da quantidade de agulhas e seringas necessárias para a campanha de vacinação. Ou seja, no aspecto logístico, o governo Bolsonaro se mostra mais uma vez inapto, enquanto isso, o setor privado já deixou claro que seringas e agulhas não será problema, e isso ocorre pelo fato de que enquanto o governo compra através de concorrência pública via pregão, onde o objetivo é conseguir os menores preços, o setor privado sendo constituído de centenas de clínicas particulares pelo território nacional pode comprar em menores quantidades e pagando, inclusive, um preço maior e de forma direta. 

 

No Brasil, com a ineficiência e precarização do Sistema Único de Saúde (SUS) e o aumento dos incentivos governamentais nas redes privadas de serviços de saúde, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) foram gastos mais de R$ 231 bilhões de 2010 a 2017 pelas famílias brasileiras com o setor privado, sendo as principais despesas com médicos particulares e planos de saúde. 

Em nota, a Associação Brasileira de Vacinas afirma que as 200 empresas conveniadas na organização representam 70% do mercado privado nacional que terão prioridade na aquisição do imunizante.

Ainda segundo a Associação, não está claro quanto será o custo da dose da vacina na iniciativa privada.

Anualmente, as clínicas de vacinação faturam R$ 1 bilhão no Brasil. Em 2021, Barbosa espera o dobro de lucros:

O debate sobre vacinas ampliou o interesse pela imunização”, diz o Presidente da Associação Brasileira de Vacinas.

 

 

 

 

 

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